
Com quase 3 milhões de km2 de território, o viageiro que saia para percorrê-los encontrará-se a cada passo com uma diversidade cultural e geográfica difícil de abranger, a tal ponto que terá a sensação de ter mudado de país.
No mapa da Argentina cabe cinco vezes a França. São quase 3 milhões de quilômetros quadrados de território, e o viageiro que sair para percorrê-los encontrar-se-á a cada passo com uma diversidade cultural e geográfica difícil de abranger, a tal ponto que ao longo da viagem várias vezes terá a sensação de ter mudado de país.
No caminho conhecerá pessoas tão diversas que o único que têm em comum é o grito de um gol. E então esse viageiro notará que a Argentina é uma espécie de universo geográfico com poucas grandes cidades e milhares de povoados perdidos, por exemplo, na imensidão da patagônica ou no fundo da selva subtropical --separados por 3.500 quilômetros--, onde no mesmo dia do ano pode ter uma temperatura de 30 graus centígrados em um e 10 abaixo de zero no outro.
Por isso, a Argentina é um convite a uma viagem diversa, a uma experiência multicultural, e a observar a multiplicação da paisagem levada à sua máxima expressão.
Destinos imperdíveis
Buenos Aires, capital cosmopolita, delta e pampa
Em uma viagem pela Argentina, o viageiro conhecerá Buenos Aires, uma metrópole moderna com inesperados recantos de ares parisienses, uma agitada vida noturna e um delta selvático para navegar. Os mais audazes aprenderão a dançar o tango em uma milonga, e os fanáticos do esporte assistirão ao espetáculo incomparável do Boca-River em “La Bombonera” ou em “El Monumental”. Outros se afastarão 100 quilômetros da cidade até uma estância de origem gaúcha para saborear um “churrasco” de terna carne argentina com o pampa infinito se estendendo aos quatro lados. E quem quiser um pouco de sol e praia poderá viajar 400 quilômetros ao sul até as praias da costa atlântica na cidade de Mar del Plata.
Abismos verdes em Iguaçu
Em uma hora e meia de avião em direção ao nordeste de Buenos Aires, o viageiro ávido de contrastes sobrevoará a selva subtropical, que detrás da janela do avião se levanta como um reino vegetal fortificado atrás de uma muralha de árvores alinhadas tronco a tronco até o infinito. Uma vez em terra, na província de Misiones, penetrará nessa parede vegetal como por um túnel, à procura das Cataratas do Iguaçu e sua famosa Garganta do Diabo. Ali, um rio suicida cai no abismo, arrebenta contra as rochas e volta como orvalho, refrescando os corpos estremecidos até os ossos por um turbilhão ensurdecedor, cujo epicentro está no fundo dessa garganta.
Indomável Patagônia
A Patagônia é uma terra legendária, cujo misterioso magnetismo vem atraindo há cinco séculos viageiros do porte de Hernando de Magalhães em sua primeira volta ao mundo, a Charles Darwin em sua viagem de “descoberta” das leis da vida, e a bandoleiros em fuga como Butch Cassidy e Kid Sundance, que encontraram em sua desolada imensidão, outra forma de labirinto que os afastou do mundo.
Compartilhada com a República do Chile, só do lado argentino mede 787.291 quilômetros quadrados. É tão vasta e extensa que ninguém pôde explorá-la totalmente. Porém, sua densidade de população é menor a dois habitantes por quilômetro quadrado, e valha como exemplo que há muitos mais pingüins que pessoas em seu território. Também é habitada pelo menor cervo do mundo –o pudú pudú— e a maior ave do reino dos céus: o condor.
Desde Buenos Aires são duas horas de avião até o “universo patagônico”. Ou pode-se ingressar também navengando nos cruzeiros que atracam na Baía de Ushuaia -na Ilha Grande de Tierra del Fuego-, onde está o último porto antes do “fim do mundo”.
No setor da estepe–essa planície que vai desde o pé dos Andes até a costa--, um pode-se dirigir por horas sem se encontrar com ninguém. Na zona andina pode-se caminhar ou dirigir dias inteiros por zonas de lagos e bosques exuberantes com árvores de 2.600 anos de vida, como os alerces da província de Chubut. No Parque Nacional Los Glaciares, o visitante descobrirá como se fosse uma labareda branca, o brilho do gelo na parede de um glacial. E depois poderá deslizar-se de catamarã pelas águas diáfanas do Lago Argentino, com icebergs enormes passando a ambos lados como galeões celestiais à deriva.
No glacial Perito Moreno, se tiver sorte, o viageiro observará impávido a sua frente como uma torre de gelo equivalente a um edifício de 20 andares desaba com estrépito apocalíptico, mergulha nas águas, sai flutuando em pedaços e vai “navegando” pelo curso do canal.
Há uma Patagônia (ou infinitas) para cada um. Seu mistério nos capta e obriga a internarmo-nos na imensidão do nada pela Rota 40, onde a lhanura de estepes se desfaz em um horizonte sem fim. Por estas terras, há menos de um século e meio, transitavam livres as caravanas dos índios tehuelches. E ainda hoje, a região é um dos últimos lugares da terra que mantêm parte de sua aura de paraíso natural intocado pelo homem, com sua fauna vivendo em liberdade.
Ninguém pôde explicá-la muito bem até hoje –e as crônicas contam-se por milhares--, mas com certeza é que a Patagônia é um destino para sublinhar na folha de rotas de todo “viageiro de lei”, quem depois de internar-se em suas vastas regiões ficará preso por um influxo misterioso do qual não poderá livrar-se nunca mais.
Solidões de Salta e Jujuy
No extremo noroeste do mapa argentino, a duas horas de avião da capital, perdura a raíz indígena do Kollasuyo, a parte sul do império Inca. Uma aproximação dessa raíz autóctone é oferecida na cidade de Salta, o Museu de arqueologia de alta montanha -MAAM-, onde exibem-se três múmias de crianças incaicas oferendadas ao sol há 500 anos no alto do vulcão Llullaiaco. E o local arqueológico mais impressionante do noroeste são as ruínas da cidade dos índios Quilmes na província de Tucumán, uma cidadezinha fortificada no alto de um cerro, onde os aborígines resistiram ao assédio espanhol durante 130 anos.
Ao percorrer a Quebrada de Humahuaca -província de Jujuy-, um viageiro desprevenido pode acreditar que está na Bolívia ou Peru. Contudo estará em outra das várias argentinas –por acaso a mais autóctone--, que aflora nos rostos indígenas da população, nas saias coloridas que as mulheres usam na cintura com uma faixa de fio de ovelha, ou nos ponchos xadrez de lã de lhama com os quais os homens se abrigam do frio na montanha. Quase todos “mastigam” sem pausa um bolo de folhas de coca que enche as bochechas, e também tem pessoas que falam o milenar idioma quíchua. Também a religião tem sua singularidade, já que as pessoas cultuam tanto ao Deus dos cristãos como à Pachamama ou Mãe Terra, à quem em dias de festa oferecem folhas de coca e chicha por um buraco pagão cavado na terra.
A cultura da Quebrada de Humahuaca tem sua própria música, uma cozinha autóctone e resguarda uma linha de vinte e duas fortalezas indígenas que defendiam a região. Por tudo isso, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2003.
A Puna, uma árida chapada a 4.000 metros de altitude compartilhada com as províncias de Salta, Catamarca e Jujuy, é um dos traços geográficos mais singulares do noroeste argentino. Nesse lugar, à beira do caminho, o viageiro encontrar-se-á com casarios solitários de dolorosa beleza, com cinco casas de adobe e teto de palha, um curral com cabras e uma capela também de adobe. Na Puna visitam-se as Salinas Grandes, uma ampla planície branca com um solo rachado em forma de hexágonos que se reproduzem com a exatidão matemática de uma teia de aranha. Destas paisagens áridas ao extremo, todo o mundo parte com uma sensação muito física de ter transitado o mais profundo do “reino do vento e a solidão” (ou o semblante do rosto aborígine da argentinidade).
Cuyo andino
Para os viageiros que disponham de tempo para percorrer a fundo, a diversidade argentina, há uma quinta região chamada Cuyo, localizada no centro do país e integrada pelas províncias de Mendoza, La Rioja, San Juan e San Luis.
Uma viagem por Cuyo poderia começar na província de Mendoza, Onde a cordilheira dos Andes se ergue até quase 7 mil metros do cerro Aconcagua, o mais alto da América. O singular de Mendoza são suas estradas pavimentadas internam-se nos vales andinos e avançam até a base das montanhas descomunais onde a vista do viageiro se adapta a uma nova concepção do espaço, com montanhas de 5 mil metros que parecem pequenas ao lado de outras maiores. Ao percorrer estes caminhos de alta montanha são visitadas as adegas e vinhedos dos famosos vinhos mendocinos, considerados os melhores do país.
Nas províncias de La Rioja e San Juan, os principais atrativos são o Parque Nacional Talampaya e o Vale da Lua, ambos parte de uma bacia geológica que brotou das profundidades da terra há 70 milhões de anos, quando erguia-se a cordilheira dos Andes. E o que surgiu nesta zona foi, nada menos que a que havia sido a superfície da terra no período triásico –entre 248 e 65 milhões de anos atrás--, junto com os restos petrificados dos primeiros dinossauros que caminharam sobre a terra, como o pequeno eoraptor. Talampaya e Vale da Lua (o nome oficial deste último é, Parque Provincial Ischigualasto) é um grande deserto com estreitos canhões e retos alcantilados de arenisca vermelha, conformando um labirinto de galerias sem saída, torres sedimentárias e sinuosos cursos de água evaporados.
Também na província de San Luis há um Parque Nacional similar aos anteriores, chamado Serra das Queixadas, que permite completar uma viagem no início dos tempos pelos ambientes do jurásico e o triásico, onde o caminhante encontrar-se-á com a pegada gigante de um dinossauro impressa no terreno, e terá a sensação de que a qualquer momento, um grupo de pterodáctilídeos aparecerá batendo as asas detrás de uma parede.
Córdoba jesuítica
A región turística que compreende a provincia central de Córdoba é muito popular no verão, entre os turistas argentinos, atraídos por suas verdes serras e umas simples praias de rio que permitem escapar do calor da grande cidade. Os estrangeiros que se aproximam, costumam visitar uma série de estâncias jesuíticas (ou estabelecimentos de trabalho) onde em tempos da colônia, essa congregação religiosa organizava os indígenas para o trabalho. O circuito das Estâncias Jesuíticas de Córdoba foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 2001.