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Turismo

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Turismo, 04 de Dezembro de 2007

Ao confim do mundo

O fotografo Becquer Casaballe esteve navegando pelos mares mais austrais do planeta. Estas são algumas de suas fotos e a crônica do que viveu.

Foto: Becquer Casaballe (www.fotomundo.com)

Uma viagem pelos mares mais austrais do planeta.

Entre as sombras do anoitecer fueguino, o quebra-gelos Almirante Irízar se desliza pelo Canal Beagle. Zarpou ao entardecer do Porto de Ushuaia para começar a segunda fase da Campanha Antártica 2006-07 que deverá levá-lo até a base Belgrano II, além do Círculo Polar Antártico, aos 77,5° de latitude Sul, região de gelos eternos e litoral desconhecido.

Já é plena noite. Na Ponte de Comando, o Capitão de Fragata Guillermo Tarapow, os oficiais de plantão, o timoneiro e seu ajudante, os vigias, observam cada detalhe da costa para determinar a posição utilizando os girocompassos, navegador satelital e um sofisticado radar anti-colisão.

No dia seguinte, estando no Estreito de Le Maire, o vento quente do Norte levanta uma bruma que oculta a Ilha Grande de Tierra del Fuego e apenas deixa ver a silhueta da Ilha dos Estados pela amura de estibordo. À distância, nos cruzamos com o Queen Elizabeth II, que navega a uma incrível velocidade de 29 nós (*)

Vamos na procura da Ilha Observatório, onde serão descarregados, com a ajuda de um helicóptero, tubos de gás e outros elementos para os responsáveis de cuidar seu Farol.

Para os três fotógrafos que estávamos a bordo do Irízar – Marcelo Gurruchaga, Eduardo Grünberg e quem escreve – esse foi o começo de uma pequena aventura. Dessa travessia participa também Alfredo Barragán junto à equipe do CADEI. Ele é o famoso capitão da balsa Atlantic que em 1984 cruzou de Tenerife até a Venezuela.
 
 
Shetland do Sul

Graças ao fato de que a Passagem de Drake se comportou de maneira pouco freqüente, com uma onda de mar suave e constante, chegamos inteiros às ilhas Shetland, o arquipélago que se prolonga de forma paralela à Península Antártica e da qual está separado pelo Mar de la Flota (Bransfield Strait).

A seguinte escala foi em Caleta Potter, na ilha 25 de Mayo, onde está a base Jubany num lugar dominado pelo cerro Tres Hermanos e um extenso glacial. Em todas as bases o procedimento é parecido: na primeira viagem transporta-se o denominado Grupo Praia, que é responsável de organizar e executar o trabalho em terra. É uma das tarefas mais árduas em condições climáticas extremas.

Os materiais são carregados do porão com aquela clássica rede para cargas a granel que desapareceu da paisagem dos portos a partir do surgimento do container; depois os helicópteros desembarcam a mercadoria nas bases ou são transportadas nas lanchas. Na volta, trazem o lixo: nada do que se produz de desperdícios é deixado ali. A proteção do meio ambiente é uma das prioridades de toda a operação antártica.
 
Ilhas Orcadas do Sul

Costuma-se dizer que um lugar não pertence realmente a ninguém até que não tem um morto a quem recordar enterrado sob seus pés. Em Orcadas do Sul, um modesto cemitério de cruzes brancas é fiel testemunha de boa parte de uma história de sacrifícios e de vitórias.

O arquipélago de Orcadas, cujas ilhas principais são Laurie, Montura, Coronación, Signey, Larsen e Inaccesibles, encontra-se a 600 milhas marítimas ao Sudeste da Ilha dos Estados.

Na Ilha Laurie está a primeira base permanente da Antártica e pertence à Argentina, criada no dia 22 de fevereiro de 1904. Durante três décadas ela foi a única, o que dá ao país legítimos direitos para considerar essas praias, montanhas e glaciais como parte de seu território.

É um pequeno Paraíso antártico, com uma rica fauna de gaivotas, petréis, pingüins, gaivotas antárticas e rapineiras e lobos de dois pelos. A base da Argentina possui uma complexa estrutura para o desenvolvimento das diversas atividades que realizam os cientistas da Direção Nacional do Antártico - Instituto Antártico Argentino.

Também estabeleceu várias marcas: em 1904 foi inaugurada a primeira agência de Correios da Antártica; em 1927 começou a funcionar a primeira estação de radiotelegrafia; seis anos mais tarde, quando a Armada Argentina realizou a substituição do pessoal destinado a esse posto, levou o primeiro grupo de turistas e, em 1940, foi realizada da Ilha Laurie a primeira transmissão de rádio que fez a conexão com a localidade bonaerense de Lanús.
 
Enfrentar o gelo

Todo marinheiro da velha escola ensinava que não se deve desafiar o mar. Com os gelos acontece uma coisa parecida, não se deve ir contra o gelo mas sim trabalhar com ele.

Conduzir um navio de 14.000 toneladas e quase 120 m de comprimento por mares congelados exige a mais sutil arte de navegar. É preciso ter experiência mas também uma grande sensibilidade, essa intuição que permite perceber se um gelo é muito duro para o aço da roda.

Mapas satelitais são consultados diariamente e nele vai sendo marcada a rota do navio, dia-a-dia, momento a momento. A bordo está a glaciologista Beatriz Lorenzo, e o Capitão de Navio (RE) Vicente Federici, veterano de mais de vinte campanhas antárticas, que dão seu assessoramento.

A água do mar costuma estar numa temperatura de 1,5° abaixo de zero, às vezes um pouco mais e recém começa a se congelar aos 2° abaixo de zero. Os “gelos jovens”, de um ano ou um pouco mais de antigüidade, podem ser investidos pois eles quebram sem resistência. A coisa é muito diferente com os gelos velhos, endurecidos pela constante pressão das placas de gelo, e com os imensos icebergs desprendidos das barreiras que podem ter 30 metros ou mais de altura.

Quando o Irízar finalmente se dirige para a costa do mar congelado, a uma distância de 13 milhas marítimas do nunatak onde está a Base Belgrano II, que é apenas um ponto na ladeira de um grande cerro branco e imaculado perto dos 77º 52 Sul, Longitude 34º 37’ oeste, pode-se dizer que os homens fizeram bem o seu trabalho.

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