
A especialista em gastronomia e Chef, Narda Lepes fala da cultura culinária argentina e afirma: “sabemos do que as pessoas gostam”, em referência à boa reputação dos pratos locais.
Esta jovem cozinheira, que acaba de publicar seu primeiro livro, afirma que os Chefs argentinos estão, pouco a pouco, ganhando reconhecimento no exterior.
Dizem que a pessoa é o que come. Esse mesmo princípio poderia ser aplicado à gastronomia de um país. No caso da Argentina, a diversidade humana, natural e regional não faz mais que materializar-se em seus pratos e cozinhas: bons produtos, fortes influências européias e comida feita como em casa.
Pode ser que seja um mito, mas o certo é que quem visita a Argentina sempre destaca a gastronomia como uma experiência realmente digna de recordar. Por que será? Uma entrevista com a Chef, especialista e apresentadora da TV Narda Lepes pode esclarecer a boa fama da arte culinária argentina.
Que lugar a comida argentina ocupa na gastronomia mundial?
Somos um país que não tem uma comida muito representativa, somos mais de produtos, como a carne. Conhece-se a Argentina por comer bem, embora as pessoas não saibam bem o que se come. Porém não somos nem México nem Peru, onde todos podem mencionar 50 pratos e há uma cultura indígena mais forte. A Argentina tem fama de lugar onde se come bem porque tivemos a sorte de receber imigrantes com bom paladar e muitas influências do Oriente Médio, judeus e próximos do mediterrâneo, como espanhóis e italianos. Come-se bastante equilibrado e isso faz com que, por exemplo, uma pessoa que vai caminhando pela rua, entre em qualquer “lugar” e possa comer algo leve, que a um europeu não vai cair mal, como, sim, pode acontecer em outro lugar da América Latina, onde você não pode comer uma torta de abobrinhas. Isso não é normal, isso acontece aqui e em mais três lugares da América Latina. Sim podem ser encontrados em lugares mais refinados ou mais internacionalizados. Na Argentina, a comida da rua, para o turista, é bastante amigável. Não há lugares onde vai encontrar guisos gordurosos ou fritos. Então, isso faz com que a nossa comida seja conhecida fora do país como deliciosa. Mas não pelos pratos em si.
Porém, esta jovem cozinheira, que acaba de publicar seu primeiro livro, afirma que os Chefs argentinos estão, pouco a pouco, ganhando reconhecimento no exterior. Narda Lepes menciona a Francis Mallman e Fernando Troca como os cozinheiros que conseguiram inserir-se no circuito internacional. Embora, afirme: “acontece que não ter uma identidade culinária muito forte marca diferença”.
A cozinha argentina então, tem que ter diversidade?
Sim, acredito que também as combinações de sabores, nós sabemos do que as pessoas gostam. Por isso, uma vez que os turistas puderam vir para cá, já que viram que é acessível, surpreendem-se e passam bem. Também vão encontrar coisas acessíveis em sabores, lugares onde tomar um café na esquina e que seja agradável, não estamos tão americanizados como outros lugares, há algo de rústico, ainda há coisas que são um pouco mais originais.
Que pratos você recomendaria a um visitante?
De carne, diria que experimentem o assado de tira cortado fino -bife de tira da picanha-, a entranha, o bife de chorizo - contrafilé. Que experimentem achuras –miúdos- com moderação, porque não estão acostumados a comer esse nível de gordura na carne. E depois, não há muito mais variedade; são empanadas -pastel frito ou assado- , carnes, algum locro, pastelito -pastel frito e doce-.
Qual é seu prato argentino preferido?
Gosto muito da carbonada -ensopado de carne, legumes e arroz, porque gosto dos guisos com ingredientes doces. Gosto das empanadas apimentadas e com batata.
Além de oferecer uma nutrida rede gastronômica, não só nas grandes cidades, senão também nos povoados e lugares pequenos, entre os argentinos ainda se mantém –apesar de que cada vez custe mais- a longa tradição de cozinhar nas casas. E é essa herança que enriqueceu e recheou o livro de receitas local, com pratos e preparações que também conformam os menus de restaurantes, bares e casas de comidas.
Quais seriam os pratos propriamente argentinos, mas de consumo cotidiano?
Aqui comemos tortilha de acelga -verdura parecida à couve-, croquetes, bifes à milanesa, bifes, frango ao forno, à caçarola, é tudo caseiro. E há restaurantes que fazem comida caseira, que se assemelha mais às que as mães fazem em outro lugar, que são as comidas que, em geral, as pessoas gostam mais de comer aqui. Porque depois, a internacional, a de alto nível, a de restaurante caro, é quase igual em todas as partes. Porém, as comidas mais caseiras, essas que as mães fazem, é a que você pode comer em qualquer restaurante e é realmente boa. Acontece em outros lugares, mas na América Latina é mais difícil.
Contudo, Narda Lepes ressalta que estas receitas tradicionais estão se perdendo “porque as pessoas cozinham menos”. Agora estão começando a cozinhar como um prazer, então as pessoas que cozinham em sua casa, começam com coisas complicadas, sem saber fazer algo muito fácil. Portanto, alguém que prepara um cordeiro com cuscuz, não sabe fazer uma torta de batatas. E antes era ao contrário, você começava com o básico. O básico não existe, porque muitos tinham mães que trabalhavam. Se isso você não viu fica difícil, porque são coisas que são aprendidas porque foram vistas”.