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Cultura - Música


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Cultura, 16 de Outubro de 2007

Música

Das maiores expressões

Argentina é um país com diversas identidades e tradições culturais que deixam sua marca em todas as manifestações artísticas. A música é uma das mais prolíficas e foi uma das plataformas fundamentais para colocar o país na cena cultural mundial, com o tango como principal bandeira. Apesar de ser o gênero musical por antonomásia ao descrever a Argentina, a riqueza de suas composições em outros gêneros não é menor.

Os gêneros populares são aqueles que lhe outorgaram o maior prestígio: o tango, o folclore e o rock deixaram uma marca na história da música através de suas composições originais, fusões e reinterpretações.

A música clássica conta com um desenvolvimento notório; pelo Teatro Colón de Buenos Aires passaram intérpretes de renome internacional. E, lentamente, outros gêneros e subgêneros musicais –como o jazz ou os ritmos latinos- vão encontrando referentes que enriquecem o panorama da música local.

Tango
Este amálgama de raízes africanas, européias e crioulas, é a contribuição argentina para a cultura mundial por excelência. De origem netamente popular, gestado em subúrbios, prostíbulos e cortiços de Buenos Aires, o tango (que significa “lugar de reunião dos escravos”) é inseparável da melancolia de sua música, letras e a sensualidade e paixão de sua dança.

Nos seus inícios, que arbitrariamente poderiam se situar em meados do século XIX, eram a flauta, o violino e a guitarra os principais instrumentos utilizados. A partir de 1900, com a forte presença imigratória, somou-se o bandônion, o qual tomou um protagonismo que dura até hoje.

Carlos Gardel, o “Turdo Crioulo”, foi quem popularizou o tango como música durante as primeiras décadas do século XX e se converteu no emblema mundial deste gênero e em um símbolo da cultura argentina.

A partir da década de 40, com a consolidação das indústrias culturais locais, em especial o rádio e o cinema, o tango entrou em sua idade dourada, com compositores e cantores como Osvaldo Pugliese, Aníbal Troilo, Enrique Cadícamo, Tita Merello, Virgilio e Homero Expósito, Alberto Castillo, Enrique Santos Discépolo, Horacio Salgán e Homero Manzi, entre uma inúmera lista.

Roberto Goyeneche iniciou sua carreira em meados dos anos 50. Porém, foi um dos tangueiros mais versáteis, dono de um fraseio e estilo único que o situam transversalmente ao longo da história do tango. Até sua morte, em 1994, foi reivindicado por todas as gerações. Também, o “Polaco” Goyeneche apadrinhou a carreira de Adriana Varela, singular cantora que se posicionou como uma das vozes femininas atuais de 2x4.

Entre os 60 e os 70, o tango viveu uma renovação junto a Ástor Piazzola quem, através de suas composições e seu bandônion, o levou às fronteiras musicais com outras músicas, como o jazz. A linha mais tradicional encontrou no Sexteto Mayor, Julio Sosa, Leopoldo Federico e Mariano Mores, expoentes que ainda mantêm sua vigência.

Outra vertente do desenvolvimento contemporâneo do tango está marcada pelo cruzamento com outros gêneros, resultado da incorporação de músicos jovens que o revitalizaram através da incorporação da eletrônica e o rock. Alguns desses projetos são: Gotan Project, Bajo Fondo Tango Club e Tanghetto.

Em Buenos Aires, três eventos já se impuseram na agenda mundial: são o  Campeonato, Mundial e o Festival de Tango que há uma década, convocam os visitantes de todo o mundo.


Folclore
Conhecido como uma totalidade, o chamado “folclore nacional” é o gênero que mais subgêneros, matizes, estilos e produções condensa. Cada região do país caracteriza-se por imprimir um toque distintivo na sua criação, multiplicando ainda mais a variedade.

Desde a época colonial, o folclore se instalou como o gênero musical que reuniu a composição mais vinculada com os povos originários e as influências  colonizadoras. A zamba, a chacarera, o chamamé, a baguala, o carnavalito ou a copla são subgêneros que encontram maior difusão em diferentes províncias e que, por sua vez, se nutriram de intercâmbios com países limítrofes. Os instrumentos musicais que se destacam são o bombo legüero, a caixa, o sicu, o charango e a guitarra.

Seu máximo referente é Atahualpa Yupanqui. Autor, compositor, guitarrista e cantor que soube retratar a identidade e realidade de cada região, interiorizando-se das velhas culturas aborígines. Com precisão e poesia, descreveu a situação política dos habitantes rurais, denunciando as históricas condições de explotação e pobreza. “O arrieiro” e “Lua tucumana” são, provavelmente, suas músicas mais conhecidas.

A lista de folcloristas é extremamente rica e está conformada por artistas de renome internacional. Alguns deles são: Horacio Guarany, Jorge Cafrune, Mercedes Sosa, Eduardo e Juan Falú, Alfredo Ábalos, Sixto Palavecino, Liliana Herrero, Los Fronterizos, o Duo Salteño, Peteco Carabajal, Los Chalchaleros, Chango Spasiuk, Teresa Parodi, Raúl Carnota e Soledad Pastorutti, apenas para mencionar alguns.

Na cidade de Cosquín, na província de Córdoba, há mais de 50 anos, realiza-se todos os verãos o festival de folclore mais importante da América Latina.

Rock
Argentina não ficou imune à revolução cultural que o rock and roll significou como movimento mundial. Desde o início dos anos 60, os centros urbanos –Buenos Aires, Rosario, La Plata– foram ávidos receptores do nascente gênero musical. Algo que caracterizou este ingresso foi a rápida assimilação e transformação a partir de aparências locais.

Os Gatos –grupo rosarino liderado por Lito Nebbia– foram os que “inauguraram” a composição local de músicas de rock. Seu primeiro hit foi “A Balsa”, escrito por Tanguito. Outras agrupações somaram-se ao cenário aberto: Almendra –com Luis Alberto Spinetta à frente– e Manal –com Javier Martínez– iniciaram uma realização musical própria, baseada na música beat que se estendia mundialmente.

No final da década de 60, outros solistas e suas agrupações foram aumentando a lista e, por sua vez, ampliando a gama de estilos e subgêneros: Pappo’s Blues, A Pesada dol Rock and Roll, Arco Iris (fundado por Gustavo Santaolalla) e Vox Dei incorporaram elementos mais duros na textura sonora da época.

Os anos 70 se iniciaram com o nascimento de duas bandas antológicas, lideradas pelos que chegaram a ser os máximos referentes do rock argentino: Pescado Rabioso, de Luis A. Spinetta, e Sui Generis, duo encabeçado por Charly García junto a Nito Mestre. Pescado Rabioso, expoente de um rock mais áspero, e Sui Generis, que ampliou os horizontes com o rock acústico, foram exemplos de composições musicais renovadoras, acompanhadas por letras poéticas.

Este período marca a entrada do rock nacional a certa massividade, com a  organização de shows de música dos quais participavam várias bandas. O fato paradigmático foi o recital de despedida de Sui Generis em 1975, que convocou uma multidão de jovens.

A forte mobilização política e a instauração de uma cruenta ditadura militar em meados dos anos 70 significaram o momento de maior resistência e contracultura da música jovem. Assim, grupos como A Máquina de fazer Pássaros e Serú Girán –ambos liderados por Charly García–, Invisível –de Luis Spinetta– e solistas como León Gieco, converteram-se em referentes, não somente pelo compromisso social de suas letras, senão também pela renovação musical que introduziram.

No início dos 80, o rock nacional sofreu um impulso proveniente de um fato pouco feliz: com a Guerra das Malvinas –em 1982–, o governo militar proibiu a música em inglês. Isto levou as rádios a difundirem música em espanhol, beneficiando os artistas locais, como Lito Nebbia, Moris, Piero, León Giego e Miguel Cantilo.

Com a abertura democrática, em 1983, as manifestações artísticas voltaram a ocupar um lugar preponderante após anos de censura e perseguição. Desta maneira, produziu-se uma explosão de bandas e solistas que, através de suas letras, criticaram os anos de violência e advertiam sobre os problemas sociais da época. García e Spinetta continuaram à frente do rock, gerando composições únicas, que misturam gêneros e estilos. O grupo platense Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota –liderado por Carlos “Indio” Solari e Skay Beillinson– saiu à superfície com seu rock mais visceral e letras de alto lirismo e crítica social, mas também reconhecido por não aparecer nos meios massivos de comunicação (fato pouco freqüente ao nível mundial) e editando seus próprios discos. A música mais “moderna” ou dance encontrou em Virus, Los Abuelos de la Nada –formado por Miguel Abuelo e o jovem Andrés Calamaro– e Os Twist uma estimulante base. Outros grupos, como Os Fabulosos Cadillacs ou Los Pericos, incursionaram em ritmos como o ska, o reggae e o dub. Os Violadores tomaram o punk. E Riff, fundado pelo brilhante guitarrista Pappo, encabeçou o rock mais pesado.

Esta década também viu nascer dois grupos que fariam história.: Soda Stereo e Sumo. No primeiro, um trio conformado por Gustavo Ceratti, Zeta Bosio e Charly Alberti, introduziu sons novos e uma estética bem cuidada, que o converteram em líder indiscutível da América Latina. Sumo, criado pelo ítalo-inglês-argentino Luca Prodán, aprofundou em sonoridades até esse momento desconhecidas na Argentina, fazendo o que muitos chamam de o “melhor reggae” local. Com sua separação, formaram-se duas bandas que, até hoje, são guias  indiscutíveis: Divididos e Las Pelotas.

Durante estes anos também apareceu em cena, um grupo de músicos da cidade de Rosario que renovaria a cena: Juan Carlos Baglietto, Silvina Garré e Fito Paéz.

A época de massividade e industrialização pode situar-se, em linhas gerais, a partir da década de 90, quando os megashows institucionalizaram-se como eventos consagratórios para os músicos. Além da popularidade de García, Páez, Spinetta, Calamaro, Los Redondos de Ricota e Soda Stereo, somaram-se bandas como: Los Piojos e Bersuit Vergarabat, centradas na mistura de sons rio-platenses e latinos; La Renga, com um rock mais cru e um imenso poder de convocatória; Viejas Locas, representante do chamado rock do bairro; e Babasónicos, com sua música mais alternativa.


Clássica
A Argentina esteve fortemente influenciada pela cultura européia. A recepção da música erudita e seus instrumentos iniciou-se muito cedo, porém foi a partir do século XVIII que sua difusão proporcionou uma tradição que permanece até hoje.

O período de emancipação, que vai de 1810 a 1816, teve entre suas figuras o espanhol Blas Parera, compositor da música do Hino Nacional. Outros criadores, como Juan Esnaola ou Juan Bautista Alberdi, foram os primeiros nascidos em terra argentina. O período que vai desde 1850 até inícios do século XX esteve marcado pela experimentação com estilos folclóricos. O nome mais destacado é Carlos López Buchardo, quem em 1924 fundou o  Conservatório Nacional de Música e Arte Cênica que hoje leva seu nome. Entre a década de 40 e 50, a composição local recaiu nos primeiros formandos do Conservatório. Desse período sobressaíram: Alberto Ginastera e Carlos Guastavino. E da década del 60 destacam-se Alicia Terzian, Gerardo Gandini e Waldo de los Ríos, saudoso músico ecléctico por ter popularizado peças clássicas através de sua modernização.

Atualmente, o acervo de músicos clássicos argentinos desfruta o reconhecimento mundial graças ao talento de Daniel Barenboim, Martha Argerich, Bruno Gelber e Gabriel Senanes.

Uma menção à parte merece a tradição de edificar importantes teatros dedicados à difusão da música clássica, a lírica e o balé –com seus respectivos e prestigiosos corpos estáveis-, que informam sobre a precoce devoção dos centros urbanos argentinos por este gênero musical. O Teatro Colón em Buenos Aires –com a melhor acústica do mundo, conforme os expertos–, o Argentino em La Plata ou o Grande Teatro de Córdoba são uma amostra disso.

Outro dado interessante para destacar é a existência de diversos corpos musicais, a grande maioria de gestão estadual, com renome internacional, como a Orquestra Sinfônica Nacional, a Orquestra Nacional de Música e a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires.


Outros gêneros
Há gêneros que apesar de não serem preponderantes adquiriram um desenvolvimento notório através dos anos e merecem ser mencionados. O jazz, a cumbia e a música eletrônica são alguns dos que com intensidade instalaram-se na cultura local e obtiveram projeção internacional.

Artistas locais como: Oscar Alemán, Mono Villegas, Gato Barbieri, Roberto Fats Fernández, Hugo Pierre e Jorge Navarro, Gustavo Bergalli, entre muitos outros, deram um lugar importante ao jazz, especialmente em Buenos Aires. E originaram novas texturas e sonoridades através das fusões com o tango e a música rio-platense.

A cumbia, ritmo originário da Colômbia, tomou matizes próprios ao se introduzir na Argentina e passou a ter identidade autônoma. Com melodias simples, dançantes e alegres, sua fusão com o modo de fazer folclore de cada província derivou no surgimento de cadências próprias, com uma longa lista de grupos e solistas. A expansão da cumbia foi simultânea ao processo de mistura local com ritmos centro-americanos, como o bolero, a rumba, a salsa e o hip hop. O Quarteto, oriundo da província de Córdoba, é talvez a vertente mais conhecida e que mais afiançou suas características distintivas ao longo de toda a América Latina.

A música eletrônica encontrou no país um estimulante recebimento. Seus centros urbanos, especialmente Buenos Aires e Rosario, gozam de um prestígio internacional em relação à grande oferta noturna de danceterias. É por isso que não nos estranha que DJ’s como Diego Ro-K, Hernán Cattaneo, Villa Diamante ou Romina Cohn, hajam ganho um lugar na cena rave mundial.

Mais informação
Hino Nacional Argentino
Departamento de Artes Musicais
Instituto Nacional de Musicologia
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Tangodata
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Homenagem ao rock nacional
40 anos de rock nacional
Selos postais - Homenagem aos 40 anos de rock nacional
Cumbia
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Imaginadores
Imaginadores é um documentário sobre os quadrinhos argentinos. Reúne entrevistas dos principais desenhistas do país. Estrear-se-á nos cinemas no final de março. (Daniela Fiore)