
Hernán Berdichevsky e Gustavo Stecher, sócios e gestores de idArg, explicam a origem do projeto e seu crescimento até se converte em um dos projetos de branding mais reconhecidos no mundo do design.
A criatividade, através da reutilização dos recursos, às vezes escassos, costuma ser uma característica valorizada dos profissionais argentinos. Em outras palavras, aproveitar situações adversas para gerar outras estimulantes e prósperas, parece formar parte do espírito empreendedor dos locais. A gestação e desenvolvimento do projeto Identidade Argentina é um bom exemplo para entender, em ação, a aplicação destes orçamentos.
Como surgiu este projeto de redefinir a identidade argentina através de seus ícones?
Gustavo Stecher: Foi uma iniciativa totalmente nossa. Tinha a ver com a conjuntura, com um momento muito crítico [a crise argentina de 2001]. Porém sempre pensamos que as crises são oportunidades e tivemos essa postura.
Hernán Berdichevsky: Quando nos tocou a crise, de alguma maneira interpretamos o que estava acontecendo e tratamos de te ruma visão particular, desde o ponto de vista que é a gráfica. E quisemos tentar fazer algo sobre a Argentina.
Como foi o processo de seleção dos ícones?
Os dois: Um caos.
HB: Durante esse momento, nosso estúdio era como uma trincheira psicológica. As pessoas que ficaram, nesse momento de crise, não sabiam muito bem o que fazer, entre a angústia e os pensamentos derrotistas. Pudemos montar como um clima incrível de trabalho. Muita gente foi se aproximando, com suas idéias, e daí fomos criando, polindo, desde o gráfico e o conceitual. Igual, foi arbitrário.
GS: Achamos que a construção de uma identidade é totalmente anárquica. E o bom é que a construção do livro também foi anárquica. Construir um livro sobre identidade tinha muito de capricho, de formação pessoal, de consulta.
HB: Havia muito de nossa geração. Foi a primeira crise que nos pegou bem no bolso. Era um pouco a angústia, a fúria, a esperança, era tudo. Havia personagens que nos faziam respirar e outros zangar. Em paralelo ao conceito, também havia uma questão gráfica. Por que não escolhemos o Perón em lugar de Evita? Depois de Madonna, o ícone de Evita foi mundial. Qualquer desenho ia trazer Madonna. E assim, foi também uma questão de ícones que funcionam só desta forma.
E os textos explicativos? Procuravam que funcionassem como ancoragem verbal?
HB: Começamos a encontrar caminhos alternativos. Alguns ícones, como o do San Martín, necessitavam de uma explicação. Porque todo o interessante que tinha de gráfica, era completamente abstrato, não se entendia. O relato, então, era uma questão bastante diferente no conceito gráfico. Queríamos alguma coisa mais autóctone, mais crítica, divertida.
GS: Muita autocrítica, sim. São textos muito icônicos. A idéia sempre foi ter dados, autocrítica e humor. No início, tivemos claro que queríamos isso. E que fosse uma ancoragem, porque não gostamos da repetição, o epígrafe clássico. É um livro sobre identidade argentina. Nós trabalhamos sobre os ícones, porque é nossa forma de comunicar mais forte. Porém, entendemos claramente que para falar de identidade argentina, o ícone somente não alcança se não tiver ancoragem. E queríamos que tivesse tudo o que o ícone não podia dizer.
Berdichevsky e Stecher colecionam um enorme anedotário para explicar o porquê da presença de cada um dos 75 ícones que compõem o livro. Por exemplo, a inclusão do ícone de José de San Martín (um dos personagens fundamentais nos processos independentistas da América Latina e considerado o pai da pátria argentina) foi sugestão do designer e comunicador visual Norberto Cháves que, depois se encarregou do prólogo do livro. A respeito, Gustavo Stecher, afirma: “E faltava San Martín porque na verdade quando o estávamos fazendo, vinha faltando um encerramento. E os valores importantes, sustentáveis que defendemos estão plasmados como personalidade ou como ícone da Argentina em San Martín. Mais que qualquer outro dos que estão aí”.
Que critério utilizaram para organizá-los?
GS: Foi muito difícil, até pensamos em um momento que fosse alfabético. No final, tentamos. Assim como é de anárquica a construção da realidade e a identidade, geramos no livro uma ordem que nos representasse. E assim ficou: cada um vai se enlaçando com o qual continua e vai gerando um ritmo, um clima. Arranca com a pátria, o país, continua com o geográfico, a Patagônia, Os Pampas, certas questões mais naturais, como o ombú. E no final começam a aparecer as construções mais culturais que são as personalidades. E o fechamento de San Martín é claramente isso. Começamos com a pátria e concluímos com a pátria.
Outro dos ícones que suscitou controvérsia foi o de Ernesto “Che” Guevara. “E nos gerou muita discussão. Porém, nós não estamos fazendo nenhum julgamento de valor. O Che é argentino, é o ícone mais famoso da Argentina no mundo”, sustenta Gustavo Stecher. E seu sócio, acrescenta: “Esse foi divertido porque é ícone de um ícone. Quando decidimos fazer o Che, pensamos “De onde arrancamos”? Não há de onde, há apenas um lugar e é a foto. E então, como fazemos um ícone de um ícone? Para mim é um dos que mais gosto. O mesmo aconteceu com o lenço das mães”.
Qual foi a linha estética selecionada?
GS: tem um estilo muito nosso, por um lado, e, por outro, muito sintético, muito despojado e com o mínimo de recursos possíveis.
Tinham como objetivo, embora fosse latente, intervir na discussão política ou cultural sobre a identidade argentina, o ser nacional?
GS: Não houve talvez, um projeto original expressou, mas intervir no cultural, 100%. Nossa idéia era mostrar outra Argentina. Não é o livro de fotos do gaúcho com o riste de moedas. Não é só isso. A variedade, o espectro argentino é enorme. A mistura de raças, de situações culturais.
HB: Igualmente sempre tivemos vontade de que isto fosse algo, não somente para os turistas, senão também para os argentinos.
Qual é o destinatário em que pensaram?
HB: Um pouco de tudo. Queríamos fazer algo rico em meio de uma crise, que conte como somos. Tentamos mudar de fora para dentro e simultaneamente de dentro para fora.
Qual é o ícone que mais gostam?
HB: Para mim, o melhor ícone é o do tango, tem magia.
GS: Provavelmente o que esteja melhor desenhado, ou melhor resolvido, é o do Che. Acho que é um ícone que era muito difícil e está impecável. Como identidade nacional, há um que tomou vida própria, que foi a vaca. Talvez o que mais goste seja o de La Pampa, porque foi o primeiro e é o mais sintético de todos e é o mais conceitual.
Se tivessem que acrescentar algum?
GS: Engasgado não tenho nenhum. Que gostaria, sempre acho que gosto muito de Seu Atahualpa Yupanqui. Talvez, a razão de não colocá-lo teve a ver que preferimos fazê-lo a partir da ausência, o charango, o erke, o sikus. E os Prêmios Nobel. Acho que é como um traço da Argentina, que tem relação com uma época de ouro da universidade e a educação.
Ambos se vêem orgulhosos e satisfeitos com sua composição. E não é para menos. Além de submeter à discussão a identidade de um país, fizeram uma proposta para ser reapropriada. E, como resultado inesperado, deu uma marca de país alcançada e com um elevado grau de pregnância, traço altamente valorizado em uma comunicação dominada por sinais visuais. A modo de encerramento, Berdichevsky parafraseia seu sócio e diz: “Gustavo sempre diz uma frase: “Tenho a sensação de que fizemos as coisas bem.” E com essa frase vou dormir tranqüilo. O projeto começou sem um tostão e sem nenhuma pretensão, e terminou em um lugar, com um livro, com um projeto incrível, a pulmão”.
