Quinquela e La Boca
Um artista e seu bairro
Entrevista a Maria Sábato, diretora do Museu Quinquela Martín.
Benito Quinquela Martín é um dos pintores mais populares e reconhecidos da Argentina. Porém, não só pelas suas cores e eloqüentes quadros, que mostram a classe trabalhadora portuária das primeiras décadas do século XX, senão pela identificação com o bairro que o viu crescer: La Boca. Esse subúrbio de imigrantes italianos, atualmente símbolo turístico da Cidade de Buenos Aires, deve muito a Quinquela Martín. Tanto como o pintor deve ao bairro.
Fiel seguidor da vinculação entre arte, política e sociedade, Quinquela Martín (1890-1977), filho adotado e cuja infância foi marcada pela pobreza, soube abrir um caminho ao ritmo da perseverança e o compromisso, em um bairro que, conforme explica María Sábato, diretora do
museu criado pelo artista em 1933, ofereceu uma mão solidária que marcou, para sempre sua vida:”a mão foi o bairro, era um bairro que tinha uma malha, era um bairro pobre, mas com idéias. Quinquela se salvou porque havia associações que, de alguma maneira, acolhiam as crianças que podiam pintar, escrever, ter um ofício. E eles mesmos iam se inserindo em uma malha social irrompível”.
O crescimento do prestígio e a popularidade de Quinquela Martín esteve sustentado, em parte, por suas viagens a Europa e E.U.A, onde museus e personalidades compravam seus quadros. Contudo, como afirma María Sábato, o reconhecimento do artista provém, fundamentalmente, das pessoas comuns, “o povo o havia tomado como seu grande representante. Já não podia ser discutido. Quando algo realmente incorpora-se no povo, não há quem o discuta. A Academia, é claro, o aceitou”.
Assim, a grande obra de Quinquela não radica, unicamente, em suas pinturas, senão também em ter inventado grande parte de La Boca, desde a década de 30 até agora, através das pinturas e murais que decoram o bairro e, fundamentalmente, de um legado intángível: a coerência absoluta entre sua arte, seu compromisso social, político e sua vida. Em 1933, comprou um grande terreno em um lugar-chave do bairro, a metros de Caminito e frente ao rio, e edificou o que a diretora do museu chama de “o primeiro complexo cultural da Argentina”, que permanece até hoje: um museu –cujo terceiro andar foi a moradia do pintor até sua morte-, um jardim de infância, escola de primeiro grau e segundo grau, um berçário, um teatro e um centro odontológico. A partir daí, Quinquela Martín não se inspirava, senão que apenas deixava que a realidade cotidiana de seus vizinhos, esses operários, trabalhadores e imigrantes explorados, passasse ao bastidor, mas com o tamis do artista: um contexto cinza e de miséria aparecia materializado com cores estridentes, fortes e vibrantes. Por isso, María Sábato afirma que “não denunciou, ele mostrou o trabalho, mostrou a dignidade do trabalho, mostrou a dignidade de um bairro, de um imigrante, de um trabalhor”.
Atualmente, La Boca e o Museu Quinquela Martín estão no topo do ranking nas escolhas dos turistas. Sábato arrisca e explica o gosto dos estrangeiros por Quinquela “porque se diferencia dos europeus, porque como não teve escola européia, tem uma marca que não se vê em outros lugares”.