
Benito Quinquela Martín é o pintor mais popular da Argentina. Sua vida, suas obras, seu bairro e o povo fizeram do artista um personagem importante na história de La Boca e de toda a arte argentina.
“Don Pedro de Mendoza 1835, Museu de Belas Artes de La Boca, Complexo Cultural Benito Quinquela Martín”. O lugar é perfeito: em pleno coração de La Boca e na avenida batizada em homenagem ao fundador de Buenos Aires. Aí, sobre as terras que o mesmo pintor doou ao seu bairro com estritas indicações para seu uso, funcionam um museu e uma escola.
Seu atelier funcionava na rua Caminito. Daquela grande janela, no terceiro andar do Museu, ele via os barcos, estaleiros e trabalhadores do porto; aí nasceu uma grande parte de seus quadros. Apesar de que lembrava com muita saudade e sorrisos seus quase sete anos num orfanato, sua infância estava pintada do cinza dos hábitos das freiras e paredes do orfanato. O jogo de cores, luzes e sombras de suas obras são o contraste perfeito com o clima sombrio de sua infância.
Com essa virtude de se dar com os mais humildes e, ao mesmo tempo, com as classes altas, soube retratar em suas pinturas o trabalho e sua gente. Apesar da crítica que teve que suportar durante toda a sua vida, e mesmo depois de sua morte, Quinquela é um dos personagens mais queridos da arte e do país. Em 1925, o presidente Marcelo Torcuato de Alvear (1922-1928) enviou Quinquela à França para que suas obras fossem julgadas em Paris. Na Europa, conheceu Benito Mussolini, que ficou fascinado com seu trabalho, comprou mais de dez quadros, e até chegou a lhe oferecer um cheque em branco por Crepúsculo no Estaleiro, mas Quinquela rejeitou a oferta porque era seu quadro preferido.
Os pintores e personalidades da época consideravam o artista um comerciante da arte e sua obra era muito criticada por sua pictórica e sua temática repetitiva de barcos e estaleiros. Enio Iommi –escultor Argentino– chegou a dizer que Quinquela não representava “a cultura pictórica mas sim o populismo pictórico”. Ao contrário disso, Raúl Lozza –fundador do Perceptismo– fala do pintor de La Boca como o “primeiro passo para a pintura populista”.
Já com sua imagem bem estabelecida, começou a ocupar um lugar mais importante no mundo da arte por sua qualidade artística e não pelo personagem que era. “A grande diferença entre ele –afirma Víctor Fernández, curador do Museu Benito Quinquela Martín– e o resto dos pintores é que não se parece a ninguém; a maioria tem um ar a tal ou qual artista, mas Quinquela não: Um Quinquela, é um Quinquela”.
Sua obra tem uma identidade cultural própria, quase impossível de qualificar, e esse foi um dos fatores que mais dificultaram seu rápido reconhecimento. A autenticidade em seu estilo e a simplicidade e beleza de seu trabalho fizeram e fazem dele não só um criador inimitável mas também um personagem em si mesmo.